Este capítulo foi escrito a partir das fontes de acesso gratuito que o Harrison (22ª ed.) cita no capítulo de ácido-base e de diretrizes e revisões abertas. O texto do livro não foi usado. Cada número tem a fonte ao lado: clique para ver a referência.
- O pH diz o lado (acidemia ou alcalemia); o HCO₃⁻ e a PaCO₂ dizem quem causou.
- Toda alteração primária tem uma compensação esperada. Fora da faixa, procure um segundo distúrbio.
- Na acidose metabólica, calcule o ânion gap corrigido pela albumina: alto → GOLD MARK; normal → intestino ou rim.
- Na alcalose metabólica, peça cloreto urinário: baixo responde a soro fisiológico e KCl.
- Bicarbonato não é rotina. As exceções têm critério: CAD com pH < 7,0, choque séptico com pH ≤ 7,2 e LRA, perda de base mal tolerada, salicilato.
1 O básico: valores e o que cada um mede
A gasometria arterial responde a três perguntas: o sangue está ácido ou alcalino (pH), o problema é metabólico (HCO₃⁻) ou respiratório (PaCO₂), e o corpo está compensando como deveria.
| Parâmetro | Faixa de referência | Fonte |
|---|---|---|
| pH arterial | 7,35 a 7,45 (7,36 a 7,44 em algumas fontes) | Yee 2022; Wesson 2020 |
| PaCO₂ arterial | 35 a 45 mmHg | Yee 2022 |
| HCO₃⁻ arterial | 21 a 27 mEq/L | Kraut 2018 |
| CO₂ total venoso (o “bicarbonato” do bioquímico) | 23 a 30 mEq/L (faixa proposta) | Kraut 2018 |
| Valores “normais” usados nas fórmulas | HCO₃⁻ 24 mEq/L e PaCO₂ 40 mmHg | Tucker 2025 |
O “bicarbonato” do bioquímico engana
Muitos laboratórios usam faixas largas demais para o CO₂ total: em 64 laboratórios americanos, o limite inferior ia de 19 a 25 mEq/L. Um CO₂ total venoso de 18 a 22, “normal” em muitos deles, corresponde a HCO₃⁻ arterial de cerca de 16 a 20. A proposta de Kraut e Madias: CO₂ total confirmado abaixo de 23 ou repetidamente acima de 30 pede gasometria. E CO₂ total normal não garante equilíbrio normal, porque dois distúrbios podem se anular Kraut 2018.
Gasometria venosa serve?
O pH venoso é 0,03 a 0,04 menor que o arterial Yee 2022: para estimar o arterial, some 0,03 Emmett 2020. Para o lactato, o venoso normal afasta hiperlactatemia; se vier alto, confirme no arterial (a diretriz francesa desaconselha o lactato capilar para esse diagnóstico) Jung 2019.
Lembre de onde vem o ácido: com dieta ocidental, um adulto gera cerca de 0,7 a 1 mEq/kg/dia de ácidos não voláteis, e o rim os elimina sobretudo como amônio (~60%) e acidez titulável (~40%) Wesson 2020. Quando o rim falha, o ácido fica.
2 Gasometria em 6 passos
- pH: acidemia ou alcalemia? pH normal não descarta distúrbio Hamilton 2017; se HCO₃⁻ e PaCO₂ estiverem muito alterados, pense em dois distúrbios que se anulam (seção 10).
- Distúrbio primário: o que se moveu na direção que explica o pH, o HCO₃⁻ (metabólico) ou a PaCO₂ (respiratório)?
- Compensação: calcule o esperado (tabela abaixo). O corpo nunca supercompensa Hamilton 2017.
- Ânion gap (sempre, em qualquer acidose metabólica), corrigido pela albumina.
- AG alto? Faça o delta-delta para achar o distúrbio escondido.
- AG normal? Ânion gap urinário. AG alto sem explicação? Gap osmolar.
Compensação esperada
| Distúrbio primário | O que esperar | Fonte |
|---|---|---|
| Acidose metabólica | PaCO₂ = 1,5 × HCO₃⁻ + 8 (± 2) mmHg (fórmula de Winter) | Jung 2019 |
| Alcalose metabólica | PaCO₂ sobe ~0,6 mmHg por 1 mEq/L de HCO₃⁻ acima de 24: PaCO₂ = 40 + 0,6 × (HCO₃⁻ − 24). Atalhos: PaCO₂ ≈ HCO₃⁻ + 10, para HCO₃⁻ entre 30 e 50 (Emmett); Tinawi usa HCO₃⁻ + 15 | Tinawi 2021; Emmett 2020 |
| Acidose respiratória aguda | HCO₃⁻ sobe 1 mEq/L a cada 10 mmHg de PaCO₂ acima de 40 | Sood 2010; Bruno 2012 |
| Acidose respiratória crônica | HCO₃⁻ sobe 3,5 a 4 mEq/L a cada 10 mmHg | Sood 2010 e Bruno 2012 (3,5); Tinawi 2021 (4) |
| Alcalose respiratória aguda | HCO₃⁻ cai 2 mEq/L a cada 10 mmHg de PaCO₂ abaixo de 40 | Sood 2010 |
| Alcalose respiratória crônica | HCO₃⁻ cai 4 a 5 mEq/L a cada 10 mmHg | Sood 2010 (5); Tucker 2025 (0,4 × queda da PaCO₂) |
As fontes não concordam na casa decimal: são aproximações. A compensação aguda acontece em 6 a 24 h; a crônica leva dias: 1 a 4 dias segundo Sood 2010, resposta renal completa em 3 a 5 dias segundo Bruno 2012. Se o medido difere do esperado em mais de 10%, desconfie de distúrbio misto Tucker 2025.
Ânion gap e correção pela albumina
O AG é pouco sensível para lactato: em 272 pacientes de pronto-socorro, só 58% dos que tinham lactato acima de 2,5 mmol/L estavam com AG fora da faixa normal. Na dúvida, dose o lactato Kraut 2013.
Delta-delta (razão delta)
Gap osmolar e ânion gap urinário
3 Acidose metabólica com ânion gap alto
Comece pelas três causas comuns: acidose lática, cetoacidose e insuficiência renal. Se as três estiverem fora, pense em tóxico (metanol, etilenoglicol) ou em outro ácido, como a 5-oxoprolina Hamilton 2017.
GOLD MARK
- Glicóis (etileno e propilenoglicol)
- Oxoprolina (5-oxoprolina, ácido piroglutâmico)
- L-lactato
- D-lactato
- Metanol
- Aspirina (salicilato)
- Renal (insuficiência renal)
- Ketoacidose (cetoacidose)
Cetoacidose diabética: o que mudou em 2024
O consenso de 2024 (ADA, EASD, JBDS, AACE e DTS) pede os três critérios Umpierrez 2024:
Diagnóstico
- Diabetes: glicose ≥ 200 mg/dL ou diabetes conhecido (qualquer glicemia)
- Ketona: β-hidroxibutirato ≥ 3,0 mmol/L ou cetonúria ≥ 2+
- Acidose: pH < 7,3 e/ou HCO₃⁻ < 18 mmol/L
Resolução
- Cetonas plasmáticas < 0,6 mmol/L
- e pH venoso ≥ 7,3 ou HCO₃⁻ ≥ 18 mmol/L
- Não use o ânion gap nem a cetonúria para dizer que resolveu
- Dose β-hidroxibutirato no sangue, não cetonúria: a fita de nitroprussiato mede acetoacetato, subestima a CAD no início e superestima depois Umpierrez 2024.
- Cerca de um terço tem distúrbio misto (vômitos com alcalose, Kussmaul), por isso o AG não é critério de primeira linha Umpierrez 2024.
- Potássio: se K⁺ < 3,5 mmol/L na chegada, reponha e adie a insulina até passar de 3,5; comece a repor quando cair abaixo de 5,0, mirando 4 a 5 Umpierrez 2024.
- CAD euglicêmica (glicose < 200 mg/dL com cetose e acidose) é cerca de 10% das CAD; os iSGLT2 respondem pela maioria dos casos recentes. Suspenda o iSGLT2 e acrescente dextrose ao soro Umpierrez 2024.
- Depois do tratamento, pode surgir acidose hiperclorêmica (AG normal), autolimitada; não a confunda com CAD persistente Umpierrez 2024.
Lactato: tipos A, B e D
| Tipo | Mecanismo | Exemplos |
|---|---|---|
| A | Pouco O₂ para o tecido | Choque (séptico, cardiogênico, hipovolêmico, obstrutivo), anemia grave, intoxicação por CO, convulsões |
| B | Sem hipóxia evidente | Doenças (câncer, insuficiência hepática, sepse), drogas (metformina, linezolida, propofol, ácido valproico, deficiência de tiamina) e erros inatos |
| D | D-lactato de bactérias intestinais | Intestino curto, pós-bariátrica: AG alto com L-lactato normal |
Zanza 2022; Jung 2019; Hamilton 2017
Na sepse, a Surviving Sepsis Campaign 2021 sugere medir o lactato e guiar a ressuscitação para reduzi-lo quando alto (recomendações fracas, evidência de baixa qualidade), lembrando que adrenalina pode subir o lactato sem hipoperfusão Evans 2021.
Álcoois tóxicos
- O veneno é o metabólito: metanol vira ácido fórmico; etilenoglicol vira ácidos glicólico e oxálico Gallagher 2019.
- Gap osmolar e AG andam em sentidos opostos no tempo: no começo o gap osmolar é alto e o AG normal; com as horas, o AG sobe e o gap osmolar cai Gallagher 2019.
- Metanol: sintomas em 6 a 24 h, alteração visual em 29% a 72% dos casos. Etilenoglicol: cristais de oxalato de cálcio na urina em 4 a 8 h, mas a ausência deles não exclui Gallagher 2019.
- Armadilha: alguns analisadores leem o ácido glicólico do etilenoglicol como lactato Jung 2019.
- Não espere o gap osmolar passar de 20: pelos critérios da AACT citados na revisão, gap acima de 10 com história recente de ingestão já indica antídoto Gallagher 2019.
- Tratamento: fomepizol (ou etanol) para bloquear a álcool desidrogenase e hemodiálise nos casos graves; os critérios completos de antídoto e de diálise estão na revisão citada Gallagher 2019. Acione o centro de toxicologia.
Salicilato e 5-oxoprolina
- Salicilato no adulto: alcalose respiratória (estímulo central) + acidose metabólica de AG alto, ao mesmo tempo Pham 2015; Jung 2019.
- 5-oxoprolina: paracetamol em dose terapêutica por mais de 10 dias, em gente frágil (desnutrição, etilismo, doença renal, infecção), às vezes com flucloxacilina. Em 131 casos publicados, 79% eram mulheres e o AG mediano foi 25 mEq/L. Além de suspender a droga (100% dos casos), usaram bicarbonato (63%), acetilcisteína (42%) e diálise (18%); a letalidade foi de 18% (11% com acetilcisteína e 24% sem, diferença sem significância estatística) Scafetta 2024.
4 Acidose metabólica com ânion gap normal
Aqui o HCO₃⁻ foi perdido (ou diluído) e o cloro subiu no lugar: é a acidose hiperclorêmica. A pergunta é: intestino ou rim?
- Intestino: diarreia (o líquido diarreico tem mais HCO₃⁻ que o plasma) e abuso de laxantes Palmer 2021.
- Soro fisiológico em grande volume: acidose hiperclorêmica em 19% a 45% dos pacientes de UTI Yagi 2021. A SSC 2021 sugere cristaloide balanceado em vez de salina na sepse (recomendação fraca) Evans 2021.
- Rim: acidoses tubulares renais (ATR), inibidores da anidrase carbônica (acetazolamida, topiramato), drogas que derrubam a aldosterona ou sobem o potássio (IECA, BRA, espironolactona, trimetoprima, tacrolimo) Pham 2015.
| Achado | ATR distal (tipo 1) | ATR proximal (tipo 2) | ATR tipo 4 |
|---|---|---|---|
| Defeito | Excreção distal de ácido | Reabsorção proximal de HCO₃⁻ | Excreção de ácido e de K⁺ (aldosterona) |
| pH urinário | > 5,3 | < 5,5 | < 5,5 |
| HCO₃⁻ sérico | 10 a 20 mmol/L | 16 a 20 mmol/L | 16 a 22 mmol/L |
| Potássio | Baixo | Baixo | Alto (5,5 a 6,5) |
| Pista | Nefrolitíase, nefrocalcinose | Síndrome de Fanconi (glicosúria, hipofosfatemia) | Muitas vezes assintomática |
Palmer 2021 (Tabela 1)
Pegadinha: na diarreia, a acidemia e a hipocalemia estimulam a produção de amônia e o pH urinário pode subir, imitando ATR. O ânion gap urinário negativo ajuda a separar Palmer 2021.
5 Acidose da doença renal crônica
O HCO₃⁻ começa a cair quando a TFG fica abaixo de 60 mL/min/1,73 m², mais em G4–G5 KDIGO 2024. No início a acidose costuma ser de AG normal; o AG sobe nas fases avançadas, a partir de G4 Korus 2025.
- Por que importa: a acidose crônica ativa angiotensina II, aldosterona e endotelina e aumenta a amoniogênese, que lesa o interstício Wesson 2020.
- Dieta conta: em 1.486 adultos com DRC, o terço com maior carga ácida na dieta teve risco de DRC terminal 3,04 vezes maior (IC 95% 1,58 a 5,86) que o terço menor Banerjee 2015. Estudo observacional: associação, não causa.
- Frutas, legumes e verduras são alcalinizantes; carne, peixe, queijo e grãos acidificam Banerjee 2015. Dietas vegetais tiveram efeito comparável ao bicarbonato oral em ensaios pequenos KDIGO 2024.
6 Bicarbonato: quando sim, quando não
| Situação | O que as diretrizes dizem | Fonte |
|---|---|---|
| CAD | Não de rotina; considerar só se pH < 7,0 (consenso ADA). A diretriz francesa vai além: provavelmente não deve ser dado (GRADE 2−) | Umpierrez 2024; Jung 2019 |
| Choque séptico com acidemia lática | Sugere-se não usar para melhorar hemodinâmica ou poupar vasopressor (fraca, evidência baixa) | Evans 2021 |
| Choque séptico com pH ≤ 7,2 e LRA AKIN 2 ou 3 | Sugere-se usar (fraca, evidência baixa) | Evans 2021 |
| UTI: pH ≤ 7,20 e PaCO₂ < 45 mmHg, com LRA moderada a grave | Provavelmente deve ser dado (GRADE 2+) | Jung 2019 |
| Perda de base (intestino ou rim) mal tolerada | Sugere-se bicarbonato (opinião de especialistas) | Jung 2019 |
| Intoxicação por salicilato | Sugere-se bicarbonato independentemente do pH, para alcalinizar sangue e urina | Jung 2019 |
| Parada cardíaca | Não de rotina (exceto hipercalemia prévia ou intoxicação por estabilizadores de membrana) | Jung 2019 |
Riscos citados: hipocalemia, hipernatremia, hipocalcemia, alcalemia de rebote e sobrecarga de sódio e água Jung 2019. O CO₂ gerado pelo bicarbonato atravessa a membrana e pode baixar o pH dentro da célula Zanza 2022.
7 Alcalose metabólica
É o distúrbio ácido-base mais comum no hospital: em 13.430 gasometrias de internados, foi 51% dos achados Tinawi 2021. Pense em duas fases Emmett 2020; Tinawi 2021; Do 2022:
Geração: de onde veio o HCO₃⁻?
- Perda de HCl: vômitos, sonda nasogástrica
- Rim: diuréticos de alça e tiazídicos, excesso de mineralocorticoide
- Álcali de fora: bicarbonato, citrato de hemoderivados
- Hipocalemia (H⁺ entra na célula)
Manutenção: por que o rim não elimina?
- Volume circulante efetivo baixo
- Falta de cloreto
- Falta de potássio
- Excesso de aldosterona; TFG muito baixa
Um rim normal dá conta de cargas enormes de álcali; se a alcalose persiste com TFG razoável, alguém está segurando o HCO₃⁻ Emmett 2020. A chave está no cloreto urinário, em amostra isolada:
| Cloreto urinário | Volume | Causas | Tratamento |
|---|---|---|---|
| < 20 mEq/L (responde a cloreto) | Contraído | Vômitos e sonda nasogástrica, diurético que já parou de agir, pós-hipercapnia, diarreia rica em cloreto | SF 0,9% + KCl |
| > 20 mEq/L, volume contraído | Contraído | Diurético em ação, Bartter e Gitelman | Suspender ou reduzir o diurético; repor K⁺ e Mg²⁺ |
| > 20 mEq/L, volume expandido | Expandido, PA alta | Hiperaldosteronismo primário, Cushing (sobretudo ACTH ectópico), mineralocorticoide exógeno, alcaçuz | Tratar a causa, antagonista mineralocorticoide ou amilorida, repor K⁺ |
Emmett 2020 (Tabela 2); Do 2022; Tinawi 2021
- O corte de 20 mEq/L é o mais usado; há quem use < 15 para responsivo e > 25 para resistente Oh 2010.
- Cloreto urinário que oscila entre amostras sugere diurético, às vezes negado pelo paciente Emmett 2020.
- Expansão adequada aparece como cloreto urinário subindo e bicarbonatúria Emmett 2020. Hipomagnesemia causa hipocalemia refratária: reponha o Mg²⁺ Tinawi 2021.
- Acetazolamida elimina HCO₃⁻, mas também muito K⁺: monitore e reponha Tinawi 2021. Em 382 pacientes com DPOC em ventilação mecânica e alcalose metabólica (DIABOLO), ela não encurtou a ventilação Tinawi 2021.
- HCO₃⁻ até 40 mmol/L costuma ser tolerado; acima de 45 pode dar tetania, convulsão, arritmia e delirium Tinawi 2021.
8 Acidose respiratória
O pulmão não está eliminando o CO₂: PaCO₂ acima de 45 mmHg Almanza-Hurtado 2022. Procure o defeito em cada degrau do caminho do ar Tucker 2025:
- Comando central: sedativos, opioides, benzodiazepínicos, AVC, lesão cerebral.
- Via aérea e pulmão: exacerbação de DPOC ou asma, pneumonia, edema pulmonar, SDRA, obstrução de via aérea.
- Músculo e parede: Guillain-Barré, crise miastênica, ELA, hipocalemia ou hipofosfatemia graves, obesidade.
- Produção de CO₂ alta: hipernutrição com carboidrato; cada 1 °C de febre aumenta a produção de CO₂ em 14% Almanza-Hurtado 2022.
Aguda ou crônica? Use a tabela de compensação: na aguda o HCO₃⁻ quase não sobe (tampões celulares, ~1 mEq/L a cada 10 mmHg); na crônica o rim retém 3,5 a 4 mEq/L a cada 10 mmHg em 3 a 5 dias. Por isso, com a mesma PaCO₂ de 80 mmHg, a crônica derruba bem menos o pH Bruno 2012.
- Na exacerbação de DPOC, titule o O₂ para SpO₂ de 88% a 92%: saturação maior deu mais acidose respiratória, e O₂ em alto fluxo associou-se a mais mortalidade Abdo 2012.
- O mecanismo principal não é o “impulso hipóxico”: é a perda da vasoconstrição pulmonar hipóxica, que piora a relação ventilação/perfusão, mais o efeito Haldane Abdo 2012.
- Não deixe de dar O₂ a quem está hipoxêmico: tratar a hipoxemia vem primeiro Almanza-Hurtado 2022.
- Ventilação não invasiva costuma ser indicada na hipercapnia com acidose (pH ≤ 7,35) Almanza-Hurtado 2022.
- Alcalose pós-hipercapnia: ao ventilar um DPOC retentor e baixar rápido a PaCO₂, o HCO₃⁻ alto acumulado fica, porque o rim não o elimina depressa: evite baixar a PaCO₂ rápido demais Bruno 2012; Tinawi 2021.
- Na DPOC, cerca de um terço tem mais de um distúrbio; o mais comum é acidose respiratória + alcalose metabólica (diuréticos, corticoide, vômitos, hipocalemia) Bruno 2012.
9 Alcalose respiratória
O paciente está ventilando demais. Antes de pensar em ansiedade, afaste o que mata Tucker 2025:
- Hipóxia e pulmão: pneumonia, embolia pulmonar, asma, edema pulmonar, altitude.
- Sepse: citocinas estimulam os quimiorreceptores.
- Fígado: cirrose, encefalopatia hepática, ascite volumosa.
- Drogas: salicilato, agonistas β, metilxantinas, progesterona.
- Gravidez: a PaCO₂ pode cair a 28 mmHg no terceiro trimestre, sem precisar de tratamento.
- Ventilador: volume-minuto alto demais.
Sintomas: tontura, parestesia, palpitações, espasmos musculares Tucker 2025. Trate a causa. Cuidado com o HCO₃⁻ baixo no bioquímico: pode ser a compensação de uma alcalose respiratória crônica, e não uma acidose metabólica; só o pH separa Oh 2010. Dar bicarbonato nessa hora atrapalha a compensação Tucker 2025.
10 Distúrbios mistos
- Compensação fora do esperado é o sinal mais útil: PaCO₂ acima do Winter = acidose respiratória associada; abaixo = alcalose respiratória associada.
- HCO₃⁻ e PaCO₂ em direções opostas = misto. HCO₃⁻ alto com PaCO₂ baixa: duas alcaloses. PaCO₂ alta com HCO₃⁻ baixo: duas acidoses Sood 2010.
- pH normal com HCO₃⁻ e PaCO₂ muito alterados: dois problemas que se cancelam, não um distúrbio “bem compensado” Bruno 2012.
- Delta-delta fora de 1 a 2 numa acidose de AG alto Bruno 2012.
- AG “normal” com albumina de 2,0 g/dL: corrija antes de concluir.
- Gap osmolar normal não afasta metanol ou etilenoglicol tardio.
- CAD com glicose de 180 mg/dL existe: pergunte por iSGLT2.
- Fita urinária de cetona negativa não exclui CAD: dose β-hidroxibutirato.
- HCO₃⁻ baixo no bioquímico não é sinônimo de acidose metabólica: veja o pH.
- DPOC intubado com PaCO₂ “normalizada” rápido = alcalose pós-hipercapnia.
- Alcalose com cloreto urinário alto e PA alta não melhora com soro: pense em mineralocorticoide.
11 Casos rápidos
Casos fictícios, para treinar o raciocínio. Os valores foram escolhidos para fechar com as fórmulas acima.
Caso 1. Jovem com vômitos e dor abdominal. pH 7,23; PaCO₂ 22; HCO₃⁻ 9; Na⁺ 136; Cl⁻ 100; albumina 4,0 g/dL.
- Acidemia com HCO₃⁻ baixo: acidose metabólica.
- Winter: 1,5 × 9 + 8 = 21,5 (19,5 a 23,5). PaCO₂ 22: compensação adequada.
- AG = 136 − (100 + 9) = 27. Albumina normal: AG alto.
- Δ/Δ = (27 − 12) ÷ (24 − 9) = 15 ÷ 15 = 1: AG alto pura.
- Próximo passo: glicose, β-hidroxibutirato, lactato, função renal. Se for CAD, aplique os critérios de 2024.
Caso 2. Pós-operatório com sonda nasogástrica aberta há 3 dias. pH 7,52; PaCO₂ 48; HCO₃⁻ 38; K⁺ 2,9; cloreto urinário 8 mEq/L.
- Alcalemia com HCO₃⁻ alto: alcalose metabólica.
- Esperado: 40 + 0,6 × (38 − 24) = 48,4 mmHg (atalho: 38 + 10 = 48). PaCO₂ 48: compensação adequada.
- Cloreto urinário < 20: responde a cloreto (perda de HCl pela sonda).
- Conduta: soro fisiológico, KCl e, se a perda gástrica continuar, considerar IBP ou bloqueador H2 Emmett 2020.
Caso 3. Idoso confuso, taquipneico, com zumbido. pH 7,39; PaCO₂ 24; HCO₃⁻ 14; Na⁺ 140; Cl⁻ 104.
- pH normal com HCO₃⁻ e PaCO₂ muito baixos: suspeite de distúrbio misto.
- AG = 140 − (104 + 14) = 22: acidose metabólica de AG alto.
- Winter: 1,5 × 14 + 8 = 29 (27 a 31). PaCO₂ 24 está abaixo: alcalose respiratória associada.
- Acidose de AG alto + alcalose respiratória primária no adulto: pense em salicilato Pham 2015. Dose o salicilato e veja a tabela do bicarbonato.
📖 = citada pelo Harrison 22ª ed. no capítulo de ácido-base. Todas têm texto completo gratuito no link.
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